29 de junho de 2010 | Saúde

O “difícil” paciente adolescente na cadeira do dentista

Quase 40% dos adolescentes brasileiros entre 15 e 19 anos já perderam ao menos um dente e, em 93% dos casos, a perda foi provocada por uma cárie

A área da Odontologia que visa o atendimento do adolescente, a Odontohebiatria, tem sua recente origem intimamente ligada à constatação científica de que, após o nascimento, nenhuma fase da vida é tão cheia de alterações físicas e psicológicas quanto a adolescência. “É nessa fase que, por exemplo, o ser humano desenvolve sua estatura final. Apesar de não serem quantificadas, as mudanças psicológicas são igualmente significativas, agravadas pela necessidade de os jovens se encaixarem e serem aceitos socialmente em determinados grupos e pela forte influência que padrões de beleza e comportamento exercem nessa faixa etária”, conta André Felipe Abrão, ortodontista da Clínica Genesis, Mestre em Ortodontia pela FOUSP.

A área ainda não é oficialmente uma especialidade odontológica e, portanto, não há dados sobre quantos cirurgiões-dentistas são especialistas ou atuam nela no Brasil. A Odontohebiatria tem se enquadrado mais como um campo do conhecimento, englobado a princípio pela Odontopediatria e que vem sendo estudado e utilizado por vários cirurgiões-dentistas em seus consultórios, “para aparar as arestas do atendimento desse grupo de pacientes, minimizando os erros e potencializando os acertos, durante o tratamento de um paciente tão peculiar. Antes de tudo, é de extrema importância que o profissional esteja livre de preconceitos e estereótipos e entenda o universo da adolescência, identificando as alterações pelas quais o indivíduo está passando e ainda tenha discernimento sobre o que são os aspectos normais e patológicos do desenvolvimento nessa fase da vida”, diz André Abrão.

É preciso conhecer a adolescência e suas características, tanto biológicas como psicológicas e sociais. O adolescente passa por transformações metabólicas, hormonais, estresses emocionais advindos de cobranças externas. Eles buscam novos desafios e experiências e se sentem “fortes”, “imortais”, o que caracteriza os comportamentos de risco.

Segundo Abrão, que também ministra aulas no Curso de Diagnóstico e Planejamento do Tratamento Ortodôntico para Iniciantes do CETAO, “as crianças, os idosos e os adultos têm facilidade em procurar um atendimento especializado, mas o mesmo não acontece com o adolescente, que se encontra numa fase muito especial da vida. Na maioria das vezes, o adolescente continua o tratamento com o odontopediatra, mas não de uma maneira tão confortável”, explica o cirurgião-dentista, que acredita que o Odontohebiatria tem potencial para vir a se tornar uma especialidade, no futuro.

Outro aspecto importante a que o profissional deve estar atento é que a adolescência é uma fase limite entre a dependência infantil e a autonomia do adulto. Nesse contexto, os cuidados com a saúde bucal também devem ser transferidos. “Essa é uma época em que as tarefas e o controle rotineiro dos pais tendem a diminuir e a responsabilidade dos adolescentes ganha ênfase. Alguns jovens são capazes de se cuidarem sozinhos e estão cientes da importância da própria saúde bucal. Outros resistem em incorporar hábitos saudáveis por imaturidade, falta de informação, ausência de motivação ou até por rebeldia”, destaca o ortodontista da Clínica Genesis.

André Abrão defende que o papel do cirurgião-dentista é se inserir nessa fase como educador e motivador, para introduzir nos hábitos e na rotina do adolescente o cuidado com a saúde bucal e conscientizá-lo da sua importância para a saúde geral. “E isso nem sempre é tarefa das mais fáceis, pela dificuldade própria em se adotar um novo hábito e ainda pelo comportamento contestador de muitos adolescentes. Mostrar ao jovem que ele deve ser responsável por sua saúde bucal não é a única medida importante para obter sua colaboração e atendê-lo de forma completa. O bom andamento do tratamento depende, e muito, do quanto o cirurgião-dentista conhece o paciente e da relação que mantém com ele”, defende o dentista, que é Mestre em Ortodontia pela FOUSP.

A anamnese bem conduzida, na presença dos pais ou do responsável já fornece muitas informações sobre o modo de vida, a alimentação, a higiene, a saúde geral, o relacionamento familiar e a personalidade do adolescente. “É importante também dirigirmos o nosso questionário ao adolescente, mostrando interesse em escutá-lo”, destaca André Abrão. Além disso, é preciso ter sensibilidade para deixar o adolescente à vontade, percebendo, por exemplo, o momento certo de pedir que ele entre sozinho no consultório para o atendimento, para que possa tirar suas dúvidas e responder às perguntas sem vergonha ou receio. “Construir um vínculo e uma relação de confiança com o paciente também é muito importante, pois o dentista pode se tornar o intermediário entre os pais e os adolescentes, ou entre eles e outros profissionais da saúde”, defende o ortodontista do CETAO.

Ao manter uma relação mais próxima com o jovem e conduzir bem os exames clínicos e anamnese, o cirurgião-dentista é, muitas vezes, o primeiro responsável a saber ou perceber problemas como o uso do álcool, fumo, drogas ou outros. “Um vínculo forte com os pacientes nos traz sempre muita satisfação e orgulho, ao atestarmos que eles estão mais sadios, em termos de saúde bucal, do que nós mesmos, quando tínhamos a idade deles”, diz o dentista.

O especialista também lembra que o profissional deve adequar a forma de se comunicar com esse público, adotando uma postura versátil e informal, porém com linguagem madura. “Definitivamente as ‘palavrinhas’ no ‘diminutivo’ não são a melhor opção. Normalmente, os adolescentes não querem ser tratados como criança, eles se sentem mais próximos dos adultos”, lembra André Abrão.

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